Esta Jovem Arquiteta Norte-Americana Vai Resgatar a Memória Negra do Porto Maravilha

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Esta Jovem Arquiteta Norte-Americana Vai Resgatar a Memória Negra do Porto Maravilha

Sara Zewde chamou a atenção do prefeito do Rio de Janeiro – e por um bom motivo.

Story by Gregory Scruggs

Published on Nov 18, 2014

This article is a Portuguese translation of How a 29-Year-Old Designer Is Reinventing the Urban Monument, published on Nov. 16. Translation by Thiago Silva.

Em março de 2011, Sara Zewde recebeu um curioso e-mail de uma amiga que trabalhava em seu doutorado em História Afro-Americana. O mesmo lhe indicava um artigo do jornal O Globo sobre a descoberta de um antigo porto que recebia escravos no Rio de Janeiro chamado Cais do Valongo. No papel de planejadora urbana do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento em seu escritório no Rio, Sara Zewde, norte-americana, havia acabado de ouvir falar do tal cais por intermédio de um colega por conta de sua localização na zona portuária da cidade, onde estudava planos de transporte.

“A significância histórica era inquestionável”, afirmou Zewde quanto ao cais soterrado, onde passaram aproximadamente um milhão de escravos africanos em sua jornada para as Américas. A própria Zewde, afro-americana filha de migrantes etiópios, tinha um interesse pessoal e profissional pelo lugar.

As estimativas variam, mas pelo menos quatro milhões de escravos africanos – 40% do total do mercado de escravos transatlântico – foram trazidos ao Brasil antes que o país abolisse o tráfico de escravos em 1831 e a escravatura em si em 1888, sendo a última nação das Américas a fazê-lo. O Cais do Valongo foi o maior ponto de entrada para escravos africanos no Brasil, fazendo dele o ponto de maior tráfego destes nas Américas e “um marco histórico único”, declarou Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros.

Apesar do valor histórico inegável do cais, as autoridades da cidade não estavam procurando por ele. Operários que estavam preparando a área para uma ambiciosa iniciativa público-privada de reforma da região portuária do Rio o descobriram. O acidente logo redefiniria o futuro do porto – bem como o da carreira de Zewde.

Ativistas negros há muito tentavam revelar este elo perdido da história, mas no final, a descoberta se deu por conta de operários que escavavam a região para a criação de novas tubulações de esgoto para a parceria público-privada conhecida como Porto Maravilha. A maior parceria do tipo na história do Brasil, o Porto Maravilha está pronto para transformar uma região outrora industrial ligada à classe operária de população historicamente negra em uma região estilosa cheia de condomínios e escritórios de luxo, hotéis cinco estrelas e destinos culturais projetados por arquitetos de renome. Logo ativistas se juntaram para exigir que o prefeito carioca Eduardo Paes imortalize o local como parte da reforma.

A tese de mestrado de planejamento urbano de Zewde no MIT explorava a noção de um “urbanismo negro” no contexto de Nova Orleans. Sara cresceu no estado de Louisiana, onde fica New Orleans, e há tempos via-se encantada com como a dinâmica cultural se refletia na paisagem urbana.

“Quando o prefeito respondeu ao clamor ativista dizendo que gostaria que o projeto do cais representasse a vivência negra, quase caí pra trás”, disse.

Atualmente, o Cais do Valongo é um sítio arqueológico aberto a visitantes. (Crédito: Wikimedia Commons)

No outono de 2011, Zewde deixou o Rio de Janeiro para dar início a um projeto de arquitetura paisagista na Harvard Graduate School of Design – GSD (Escola de Pós-Graduação em Design de Harvard, em tradução livre), mas não conseguiu tirar da cabeça o cais. Já em Cambridge, ela percebeu que os estudos poderiam esperar – já a oportunidade de trabalhar com o Cais de Valongo, não. Após um semestre na GSD, Sara voltou ao Rio de Janeiro com uma bolsa de estudos para investigar o tema mais a fundo.

Ao passo em que Zewde se aprofundava nos planos da cidade para transformar em monumento o Cais do Valongo, ela se viu em um papel inesperado: o de arquiteta. Em pouco tempo, Sara teve que levar a teoria à prática, passando de estudante questionadora a projetista-chefe de um monumento com implicações gigantescas para o Rio de Janeiro, Brasil e a comunidade de design global.

“NÓS NÃO SABEMOS. E VOCÊ?”

Hoje, o que restou do Cais de Valongo é conservado de forma modesta em um espaço reservado. Grandes pedras lisas estão empilhadas, por vezes organizadamente, por outras de forma precária, enquanto tufos de grama crescem entre uma e outra. Uma escadaria leva onde certa vez houve mar. Muitas das ruas e edificações ao redor, datadas do Séc. XIX, seguem os contornos do antigo nível das águas. No meio tempo, um conjunto de armazéns mais modernos, alguns dos quais já foram remodelados para se tornarem luxuosos espaços para eventos, ficam de frente para a Baía de Guanabara.

Uma rua delimita o cais exposto por um lado e uma simples pavimentação de concreto junta as outras três adjacentes, criando uma praça que tem como base o paisagismo rígido. Os quadradinhos de cimento perfeitamente simétricos contrastam com as bordas irregulares das ruínas do Cais de Valongo. Algumas placas espalhadas pelo local oferecem uma visão histórica do local enquanto importante porto negreiro. As placas, de acordo com Zewde, são a única evidência de que o governo reconhece publicamente a escravatura no Rio de Janeiro fora dos museus. Num canto, um obelisco celebra a chegada da noiva do Imperador Dom Pedro II, o último monarca a governar o Brasil, mesmo período em que a escravatura foi abolida pela sua filha, a Princesa Isabel.

Os restos do Cais de Valongo foram encontrados sete palmos abaixo da superfície, revestida por quatro camadas de pavimentação de 1843, quando o cais foi pavimento pela primeira vez para dar as boas-vindas à futura imperatriz brasileira.
“Cada camada de pavimentação tem sua própria história”, disse Zewde.

Estas histórias ganharão mais um capítulo com a adição do Porto Maravilha. Hoje, a região é uma das menos densas da cidade já lotada, com pouco menos de 32.000 moradores. No decorrer da década seguinte, as autoridades esperam triplicar a população. Com a venda de Certificados de Potencial Adicional de Construção (CEPACs), que financiou o fundo Porto Maravilha Cultural, suas ambições começam a se tornar realidade, apesar da desaceleração da economia no país ter freado o ritmo delirante do mercado imobiliário de alguns anos atrás.

No papel, são ao menos 32 projetos comerciais, incluindo a construção de uma série de Trump Towers próximas ao porto. Em 2013, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro – CDURP, responsável pela reurbanização do porto – demoliu uma rodovia elevada de 5 km de extensão que passava pela região, liberando a área para a construção de uma avenida com acesso ao mar. Não muito distante da antiga rodovia, a gigante imobiliária internacional Tishman Speyer construiu o primeiro prédio comercial novo do bairro, projetado pelo renomado arquiteto britânico Norman Foster. Em 2017, a empresa planeja inaugurar o primeiro prédio residencial da região, uma torre com 1.400 apartamentos. A dupla se juntará ao descolado Museu de Arte do Rio inaugurado em 2013, um hotel boutique adaptado do antigo silo de grãos do Moinho Fluminense e o Museu do Amanhã, projetado por Santiago Calatrava e dedicado às ciências que deve ser inaugurado até o final do ano.

O Museu do Amanhã é um dos 32 novos prédios planificados ou com obras em andamento na região portuária do Rio de Janeiro. (AP Photo/Leo Correa)

Com suas torres envidraçadas assinadas por estrelas da arquitetura e instalações culturais de renome, a reurbanização será uma mudança e tanto para a região, há muito um refúgio para a história e cultura negra do Brasil. Lar da mais antiga favela carioca, o Morro da Providência, e uma comunidade afro-brasileira histórica, bem como uma espécie de colônia de artistas, área badalada com uma série de boates alternativas e mais dois bairros de classe operária, a região do porto conseguiu prosperar mesmo na recente era de negligência benigna pela qual passa. Multidões – nativos e gringos em proporções iguais – se dirigem às rodas de samba de segunda-feira na Pedra do Sal, marco do porto onde estivadores descarregavam sal e tocavam música durante suas horas de folga. A comunidade negra que ainda mora ali descende de quilombolas e é assim reconhecida pela legislação brasileira.

Porém, ao passo em que certas medidas de proteção foram oferecidas à comunidade negra da Pedra do Sal, o fato de que o Cais do Valongo foi soterrado por camadas de pavimentação é uma metáfora adequada para o tratamento histórico do patrimônio afro-brasileiro. Basta visitar a vizinhança do centro conhecida como Pequena África, onde nasceu o samba, para ver como ficaram as comunidades negras ao longo do crescimento da cidade. Lá, uma comunidade inteira foi expulsa nos anos 40 para a construção da Avenida Presidente Vargas, uma monstruosidade de 16 pistas que o arquiteto responsável pelo plano piloto de Brasília, Lúcio Costa, chamou de “avenida mais feia do mundo”. Enquanto isso, as favelas que abrigam um número desproporcional de cariocas de pele escura tem sido negligenciadas em graus variados e ameaçadas por políticas públicas.

Recentemente, o governo optou por despejar à força gente destas comunidades em um esforço para limpar a cidade para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

“A sociedade brasileira é muito orgulhosa da comida, da música, da cultura que vem da matriz africana, mas a gente não fala sobre racismo no Brasil. Isso tem diversas consequências, como no campo de patrimônio cultural…”, comenta Washington Fajardo, assessor especial do prefeito para questões de planejamento urbano e presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, uma das principais entidades encarregadas da preservação do cais.

Enquanto o Rio de Janeiro é recriado para o palco global, o potencial de um local ligado ao patrimônio africano bem no meio de um projeto de reurbanização carrega consigo muito peso simbólico junto ao movimento negro.

Quando Zewde voltou ao Rio sob os auspícios de sua bolsa de pesquisa, ativistas do movimento já haviam pressionado Paes com sucesso, para que designasse o Cais do Valongo e outros locais próximos ligados à memória afro-brasileira como locais históricos, formalmente: Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana. No decreto municipal de novembro de 2011 que designou o circuito, um grupo de lideranças negras foi convocado para contribuir com a criação do circuito. Ambos os empreendimentos sinalizaram progresso para o movimento. “Esta foi a primeira vez que fomos consultados em um projeto de reurbanização” declarou Dulce Vasconcellos, presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE) e integrante da equipe da prefeitura.

Zewde e Fajardo logo se encontraram para falar sobre o Cais do Valongo. Ela questionou se as lideranças na prefeitura tinham alguma ideia de como um monumento poderia refletir a vivência afro-brasileira. Ela relembra: “Washington me disse ‘nós não sabemos’”. Então ele virou o jogo e rebateu, “E você?”.

Pouco tempo após esta conversa, Zewde voltou aos EUA, mas desta vez ela sabia que retornaria ao Rio.

Ao som das britadeiras que massacravam as ruas antigas da região portuária, os fantasmas do Cais do Valongo continuaram a assombrar a arquiteta de 29 anos.

Em 2013, ela trabalhou para o Hood Design Studio em Oakland e tentou conseguir um contrato para lidar com o Cais do Valongo com a empresa de arquitetura paisagista cujo diretor, Walter Hood, é um dos poucos negros no setor. Mas o local ainda não estava preparado para uma competição de design internacional e tirar a obra das mãos de empresas brasileiras não seria uma boa ideia do ponto-de-vista político.

No inverno seguinte, Zewde foi indicada ao Olmsted Scholars Program, prestigiosa premiação de bolsas norte-americana para estudantes de arquitetura paisagista cujo nome deriva do fundador da profissão, Frederick Law Olmsted. Zewde ganhou a bolsa, acompanhada de um prêmio de US$25.000 e a chancela da Landscape Architecture Foundation. Logo ela entrou em contato com Fajardo, que até então não havia dado um jeito de contratá-la, como estrangeira, para trabalhar nos projetos do local. Com a bolsa em mãos, Zewde embarcou em um avião rumo ao Rio de Janeiro durante o caótico ano de 2014 em que o Brasil sediava a Copa do Mundo.

Ao passo que a febre futebolística dominava a cidade e reduzia a produtividade nos escritórios brasileiros, Zewde encontrou uma equipe pronta para dar o pontapé inicial. “O pessoal do Washington trabalha duro”, disse. “Ficamos muito animados e trabalhamos muitos finais de semana”.

Acostumada com as longas horas de trabalho no GSD, Zewde virava dia e noite durante os febris meses de junho e julho. Ela levou ao Instituto Rio Patrimônio da Humanidade os frutos de sua pesquisa em Harvard que compreendia desde a história do urbanismo no continente africano, em que cidades como Timbuktu eram maiores que Londres até suas pesquisas no campo da botânica étnica sobre que plantas seriam familiares aos africanos escravizados.

Logo Zewde ficou conhecida no escritório como especialista em tudo ligado à afro-brasilidade. Por mais lisonjeiro que fosse, era uma posição desconfortável para se estar, relembra. “Era esquisito falar sobre cultura afro-brasileira porque não sou brasileira”, explica. “Odiava a autoridade que tinha por ser norte-americana, ou de Harvard, ou negra. Era difícil separar isso”.

Ao mesmo tempo, ela não tinha como evitar a sensação de mero simbolismo. Durante jantar na prefeitura do Rio em celebração à conferência TED Global na cidade, ela foi apresentada a Paes. “Eu era uma jovem negra – uma estrangeira em todos os sentidos”, comenta Zewde sobre a ocasião. Em algum momento do jantar, ela percebeu, “Eu era a única negra ali que não estava servindo algo”. Mas ela logo deu de ombros com uma constatação triste, porém verdadeira de sua profissão de escolha. “Estou acostumada com isso no mundo do design, do qual faço parte”.

Apesar destes obstáculos, em julho de 2014, ela apresentou a proposta de um projeto em reunião na prefeitura convocada pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Representantes do gabinete do prefeito e demais da iniciativa público-privada de reurbanização do porto estavam lá, bem como empreiteiras com interesses no Porto Maravilha, funcionários de órgãos federais responsáveis pelos direitos dos negros como a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e a Fundação Cultural Palmares, e diversos outros grupos ativistas da comunidade.

A audiência de Zewde contou ainda com a presença de Milton Guran, brasileiro que atua no Comitê Científico Internacional da Unesco e que ajudará a decidir no próximo se ano se o Cais do Valongo receberá o título de Patrimônio Mundial da Humanidade. (Portos-chave de embarcação de escravos no oeste africano há muito foram reconhecidos pela Unesco, impulsionando o turismo no Senegal e Gana).

As propostas de Zewde para a área revolvem em torno da questão de como moldar uma cidade em relação ao seu histórico de escravidão. Em suas mãos, o sítio arqueológico em si seria destacado com árvores de sombra, iluminação específica e mobiliário urbano. Enquanto isso, as ruas que levam ao ponto representariam as rotas do tráfico de escravos. Para aliviar essas dolorosas memórias, plantas, incluindo vegetação africana, criaram um microclima mais fresco e bancos brancos fariam referências a rituais afro-brasileiros ao longo de uma trilha projetada especialmente para pedestres. O projeto foi inteiramente aprovado pelos representantes do gabinete e pelos ativistas negros convocados pelo mesmo, disse Fajardo.

A inspiração de Zewde, mostrada neste esboço, veio dos rituais e prática cultural afro-brasileira. (Crédito: Sara Zewde)

Quando Zewde descreve seu projeto, retorna ao argumento acadêmico empregado em sua tese na GSD, que entrelaça seu trabalho no Cais do Valongo com uma exploração dos usos do monumento. Ela argumenta que, ao passo em que um monumento tradicional celebra um único evento ou indivíduo ao colocar um objeto em um espaço que serve como ruptura de seus arredores, a prática da escravatura com seus 400 anos de idade, necessita de uma abordagem diferenciada. “Os descendentes de africanos acordam todos os dias carregando consigo o legado da escravatura”, afirma. “Como lidar com isso do ponto de vista espacial?”.

Uma maneira seria traduzir práticas culturais em espaciais.

Samba ou capoeira, dois marcos da cultura brasileira com fortes influências afro, tradicionalmente operam em aglomerações circulares, as rodas. Em seu projeto, Zewde incorpora formas e padrões tomando-as como base. O conceito fez sentido imediatamente para o público carioca, de acordo com Zewde. O uso de plantas era outra forma de lidar com o legado vivo dos escravos. Quando todos os continentes eram Pangeia, o que agora conhecemos como Brasil e África se unia pelos quadris. A proposta de Zewde de incluir vegetação familiar aos africanos escravos chegando no litoral do Rio de Janeiro é um gesto que acena àquele momento, bem como a história geológica do lugar.

“Suas ideias sobre sementes e vegetação aqui no Rio como forma de ligar com nossas raízes africanas é bem bacana”, disse Lelette Couto, integrante da equipe consultada na elaboração do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana e da comissão de igualdade racial do Rio de Janeiro. “Faz parte da inovação apresentada por Sara ter uma visão mais futurista de nossas raízes”.

Mas como a pesquisa de Zewde lhe ensinou, o intercâmbio cultural nem sempre é simples. As autoridades brasileiras consideram plantas africanas invasivas e não permitem que sejam inclusas em projetos públicos.

Fajardo foi à luta pela proposta de Zewde, argumentando em prol de uma exceção cultural à regra, mas nada foi decidido ainda. “A noção de plantas nativas é definida pela chegada dos europeus”, disse Zewde. “É algo arbitrário se tratando da evolução das plantas”.

O projeto de Zewde para o Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana inclui plantas africanas nativas, como mostrado neste esboço. (Crédito: Sara Zewde)

PÉ NO ACELERADOR, MAS NEM TANTO

Foram necessários três anos a partir da redescoberta do Cais do Valongo até que um projeto fosse criado. Quanto tempo levará até que alguma versão da visão de Zewde seja realizada é um mistério. O prefeito pediu que o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e a CDURP preparem um estudo de viabilidade do projeto, mas nenhum prazo ou orçamento foi definido ainda.

Enquanto isso, os ativistas do movimento negro consultados no afã da criação do projeto agora deixam escapar suas frustrações com a falta de progresso. “Minha maior crítica em relação à prefeitura”, disse Vasconcello, “é que ela não assumiu o projeto”.

“Nossa postura é a de responsabilizar a prefeitura [pelo seu compromisso]”, continua Vasconcello. “Lutaremos para que o projeto saia do papel. Não podemos desistir. Para nós, o mais importante é termos a história de nossos ancestrais contada através do ponto físico de chegada dos escravos africanos”.

A porta-voz da prefeitura negou-se a especificar quem seria o órgão diretamente responsável pela criação do Circuito, e fora da própria prefeitura, ninguém parece saber também. Fajardo reforça que a responsabilidade é da CDURP e a mesma afirma que seu compromisso é só com revitalizar a área do porto e valer-se da proposta de Zewde “no que fosse possível conciliar” com o restante da revitalização da região.

Ainda assim, a CDURP afirma que o estudo de viabilidade está sendo feito e que o órgão pagará a implementação do monumento com renda gerada a partir da venda de CEPACs no local.

O presidente da CDURP, Alberto Silva, declarou via e-mail que o órgão já usou parte do dinheiro arrecadado com a venda de CEPACs para custear atividades ligadas ao Circuito, incluindo a preparação do dossiê de candidatura à Patrimônio da Humanidade pela Unesco, uma cerimônia anual em que a comunidade negra “lava” as pedras do cais, processamento do material arqueológico do local, visitas guiadas e sinalização em geral. A CDURP também forneceu apoio financeiro à comunidade da Pedra do Sal e ao Instituto Pretos Novos, atrações do Circuito.

Ao passo em que a CDURP estuda o projeto, segue aprimorando a estrutura na esteira do Porto Maravilha, incluindo zonas destinadas às intervenções afrocêntricas de Zewde. “Houve uma oportunidade perdida na Praça dos Estivadores, que poderia ter incorporado este projeto”, disse Fajardo. A Praça dos Estivadores é um dos locais formalmente listados como parte do Circuito no decreto municipal da prefeitura. Como muitos dos espaços públicos nesta região um tanto quanto palimpsesta, este tem um nome mais antigo – Largo do Depósito – para marcar as casas de engorda para escravos recém-chegados no Cais do Valongo. O objetivo era deixa-los fortes o bastante para trabalho no campo após a travessia transatlântica.

Fajardo segue otimista apesar deste contratempo. “A proposta é bastante flexível, não é um projeto urbano rígido”, disse, já mirando para o futuro, no caso, a ainda não reformada Avenida Barão de Tefé, onde fica o Cais do Valongo de fato, alvo das propostas mais elaboradas do projeto de Zewde. Ele se refere à avenida como “contextualmente muito importante” para a integridade da proposta do projeto do Circuito.

Da sua parte, a CDURP afirma que a Avenida Barão de Tefé já está pronta e não leva em consideração o trabalho de Zewde. “Será revisado de forma a analisar a possibilidade de incorporar os elementos propostos de acordo com a viabilidade e prazo geral da construção”, afirmou a porta-voz, via e-mail.

O próximo passo para o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade é uma competição entre designers afro-brasileiros para que criem um símbolo que represente o circuito. O Instituto também está desenvolvendo uma estratégia para fazer com que o Circuito beneficie residentes da região, em vez de colocar lenha na fogueira da gentrificação. Com a insistência dos moradores, Paes há pouco anunciou um plano para a construção de 10.000 moradias de custo acessível nos próximos 10 anos. “Estamos preocupados com a necessidade de criar empoderamento econômico ao longo do circuito, o que o tornará sustentável no longo prazo”, disse Fajardo.

A ideia de Zewde de que a continuidade com o passado empodera o futuro com certeza influencia o processo. “O mais importante é olhar para o passado, mas pensando no futuro, um futuro diferente, porque ainda temos muito trabalho a fazer”, disse Couto, que continua a defender o projeto na prefeitura.

Falar do Brasil como “país do futuro” gera em grande parte o revirar de olhos nos dias de hoje, especialmente entre jovens brasileiros de saco cheio no atual clima econômico e político. O Rio de Janeiro tem estado meio que isolado do declínio econômico contínuo, mas como demonstrado pelos últimos anos, há muito em que se tropeçar na estrada rumo à glória olímpica. De certa forma, a descoberta do Cais do Valongo foi um destes obstáculos – um importantíssimo achado arqueológico que certamente freou a transformação do porto em um novo distrito comercial.

Em 1991, algo semelhante ocorreu no sul de Manhattan, quando o início das obras de um prédio do governo federal revelou um cemitério histórico africano. Atualmente trata-se de um monumento mantido pelo National Park Service (Departamento Nacional de Parques, em tradução livre), mas foi preciso muito esforço ativista por parte das lideranças negras para a conservação do local, um pedacinho de um cemitério de 2,7 hectares. A atenção toda no final solidificou uma história revisionista da participação direta da cidade de Nova York no tráfico de escravos, saindo do campo da pesquisa acadêmica para tanto o monumento como uma exibição na New-York Historical Society (Sociedade Histórica de Nova York, em tradução livre).

Independente de qualquer coisa, o monumento na forma de uma laje negra em meio às sombras de arranha-céus em Manhattan passa facilmente despercebido na selva de pedra. A proposta de Zewde para o Rio de Janeiro – tornar o patrimônio africano peça central do centro revitalizado – é muito mais ousada. Tendo sido pioneira ao desenvolver uma nova abordagem no campo dos monumentos, Zewde foi comparada até Maya Lin, arquiteta norte-americana conhecida pelo Memorial dos Veteranos do Vietnã, pela venezuelana Anita Berrizbeitia, diretora do programa de arquitetura paisagista da GSD e orientadora de Zewde.

“Sara é uma negociadora, uma defensora de comunidades”, disse Berrizbeitia, que indicou Zewde para a bolsa de estudos Olmsted.

Zewde no escritório de Seattle da empresa de arquitetura paisagista Gustafson Guthrie Nichol, onde trabalha como arquiteta atualmente.

Zewde já pensa no longo prazo. Paes deixará o cargo na prefeitura após as Olímpiadas em 2016, mas a revitalização do porto continuará por pelo menos mais uma década. “A história deste lugar evoluiu ao longo de algumas centenas de anos, o que me faz pensar que cinco anos a mudarão?”, diz. “Com o tempo, creio que partes do projeto serão implementadas. O projeto exige grande coordenação entre vários atores e entidades políticas. Não espero que isso aconteça da noite pro dia”.

Zewde agora acompanha o que acontece no Rio de Janeiro enquanto trabalha em tempo integral na empresa de arquitetura paisagista Gustafson Guthrie Nichol, em Seattle. Mesmo que seu emprego lhe impeça de dedicar seu tempo exclusivamente ao Cais de Valongo, o aprendizado com o projeto agora faz parte do seu DNA como arquiteta. “Esta abordagem é o trabalho da minha vida”, diz.

Em outubro, Zewde falou sobre seu projeto no Rio de Janeiro na palestra inaugural da GSD na Black in Design Conference, evento lotado que tornou público um diálogo que Zewde e sua comunidade de arquitetos e urbanistas negros travam por conta própria há anos. Quando um espectador lhe perguntou sobre seu status como estrangeira que lhe tornava uma autoridade inesperada no Rio, ela explicou “Meu processo de trabalho é focado em reestabelecer confiança com as comunidades negras, porque o sistema já falhou muito com elas antes”.

Traduzido por Thiago Silva

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Gregory Scruggs is a Seattle-based independent journalist who writes about solutions for cities. He has covered major international forums on urbanization, climate change, and sustainable development where he has interviewed dozens of mayors and high-ranking officials in order to tell powerful stories about humanity’s urban future. He has reported at street level from more than two dozen countries on solutions to hot-button issues facing cities, from housing to transportation to civic engagement to social equity. In 2017, he won a United Nations Correspondents Association award for his coverage of global urbanization and the UN’s Habitat III summit on the future of cities. He is a member of the American Institute of Certified Planners.

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